O Julgamento

“O JULGAMENTO” ou “TUDO TEM LIMITE”

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Verter Geister – Ricardo Luiz Capuano

Personagens: Deus, promotor, acusado: Zé do Povo e enfermeira
Cenário: bancada de Juiz, nuvens ao fundo com anjos desenhados (céu cristão)

Ato 1 – Apresentação

O Julgamento

Ouve-se sons de clarins e efeitos visuais parecidos com trovões. Abrem-se as cortinas. Entra o Promotor, vestindo terno de advogado, com asas nas costas.

Promotor: – Chegou o Apocalipse! Tremam as terra! Gelem os corações! A hora do julgamento chegou! Que entre o Criador incriado!
Entra em cena Deus, vestido de juiz.

Deus: – Boa noite a todos! Que beleza… A casa está cheia…Depois de julgarmos esse primeiro acusado, vocês podem fazer uma fila aqui no meio, e vamos ver quem vai ficar à direita e quem vai pra minha esquerda … (Risada fantasmagórica)

Promotor: – Que entre o acusado!

– Entra em cena Zé do Povo, assustado e acabrunhado.

Promotor abre um livro e lê: – Zé do Povo, homem, desquitado, 45 anos, sem filhos, trabalha como mecânico de automóveis. O acusado quer acrescentar alguma coisa?

Zé do Povo: – Quero… Falta dizer que sou honesto, trabalhador, religioso, bondoso, generoso, carinhoso e tudo que de bom termina em oso… bonito e modesto! ( risadas)

Promotor: – Realmente… Muuuuito modesto! (Risadas)

Deus: – Já podemos começar, marcando aí na ficha dele: presunçoso!

Promotor: – Marco aqui na ficha … presunçoso ou… sonhador! (Risadas)

Deus: – Pois bem…Chega de enrolação! Vamos ao caso!

– Caso número 2343435678956743143276589498382783 (número imenso) dígito 7 – Julgamento do Zé do Povo!

Promotor: – O senhor poderia repetir o número do caso?

Deus: – Pelo amor de Deus… digo, meu amor… Depois te passo por escrito!

Zé do Povo levanta a mão: -Sem querer ser “presunçoso” (faz uma careta de pouco caso)… mas que história é essa de julgamento… (esbravejando) será que não tenho o direito de saber o que está acontecendo!

Barulho de trovão!

Zé do Povo: (aterrorizado) – Por favor.

Deus: – Bem… Como eu sou todo bondade… (pisca para o público e sussurra: e quem veio assistir a peça não sabe da história… pisca e aumenta a voz) Eu vou explicar!

Deus: – Eu Deus… em minha imensa misericórdia, durante séculos dei oportunidade pros humanos aprenderem a ser bons!

Promotor: – Sim! A serem bons!

Deus: – Durante séculos e séculos esperei…vendo a humanidade fazer as maiores barbaridades…

Promotor: – Sim… as maiores barbaridades!

Deus: – Tive paciência…pensando: “são apenas crianças malvadas”

Promotor: – Sim… malvadas!

Deus olha para o promotor com cara de bravo: – Por acaso o senhor foi promovido de anjo pra papagaio?!

Zé do Povo da risada e faz careta para o Promotor. Promotor faz um muxoxo.

Deus: – Bem… (olha para o promotor) voltando à explicação…Fiquei séculos e séculos esperando a humanidade tomar jeito… Os humanos foram evoluindo tecnologicamente, mas nada de melhorar moralmente. Até que finalmente …

Pausa dramática.

Promotor fala e olha para o público: – Que rufem os tambores! ( barulho de rufar de tambores)

Deus: – Finalmente, depois de séculos esperando…

Zê do Povo enche o peito de orgulho e faz sinal de positivo.

Deus: – Eu cansei! (ruído de decepção “boing”)

Todos: – Haaaaaa! (com gestos de decepção)

Deus: – Cansei de esperar vocês (aponta para o público e Zé do Povo se abaixa para fugir do dedo acusador)… E pior!

Zê do Povo faz cara de espanto: – Vixi…Lascou!

Deus: – Eu vou ter que interferir no mundo, antes que a humanidade acabe com o planeta! Até agora, vinha tratando a humanidade como crianças… (aponta para o público), mimadas e birrentas!

Promotor faz gesto de choro e Zê do Povo mostra a língua para o promotor.

Deus: – Mas agora não posso mais! Vocês (aponta para o público e Zé do Povo se abaixa) estão ameaçando acabar com o planeta por causa da violência. E pior…

Zê do Povo se benze: – Vixi … Lascou!

Deus: – Vocês estão ameaçando desequilibrar todo o sistema solar!

Promotor: – Sim … O sistema solar!

Deus olha feio para o promotor: – De novo a síndrome do papagaio? Mas voltando… Eu vinha tratando a humanidade com paciência e misericórdia, mas agora vou ser obrigado a tratar vocês como adultos… Vocês já viveram séculos e séculos de misericórdia… Agora vai ser a “lei de Talião”!

Trovões e barulhos

Zê do Povo: – Talião….Não conheço nenhum italião … ele vem me julgar?

Deus: – A lei de “Talião” é aquela que diz: “Olho por olho, dente por dente”!

Zê do Povo: – Então não é tão ruim… Eu não enxergo bem, mesmo…E “dente por dente”… toma aqui! (tira a dentadura)…

Promotor bate na testa. Ouve-se um trovão!

Deus batendo na testa: – Não sei se dou risada ou choro!

Promotor devolve a dentadura: – Bem, chega de enrolação! Vamos ao caso!

Deus: – Para ficar bem claro: Como eu estava explicando… até agora eu era complacente, “amenizando” os efeitos dos seus atos… levando em consideração que vocês… (aponta para o público, Zé do Povo se abaixa) eram crianças…

Promotor com cara de choro: – Mimadas e birrentas!

Zê do Povo mostra a língua.

Deus: – Mas agora acabou! Vou cobrar “ tintim por tintim”!

Zê do Povo: – Vixi.. Lascou!

Deus: – Tudo o que vocês fizeram os outros sentirem, vocês vão sentir! Todas as alegrias, felicidade e amor que vocês fizeram os outros sentir…

Promotor e Zê do Povo fazem cara de felizes e mandam beijinhos.

Deus: – Mas… antes disso(barulho de trovão), vocês vão sentir toda dor, sofrimento, tristezas e emoções ruins que fizeram os outros sentirem! Tintim por tintim!

Zê do Povo fazendo cara de medo e tremendo as pernas: – Agora lascou de vez!

Zé do povo: – Mas seu Deus… Eu sou tão religioso! Não dá pra diminuir essa parte da dor! Eu acendo umas velas… Faço umampromessa… Já sei: Eu prometo pagar o dízimo!!!

Deus faz cara de tristeza: – Zé… não adianta você querer “comprar” a Deus com o dízimo, promessas ou velas… Mas… Zé, você falou uma coisa importante: religiosidade.

Zé do Povo: – Pois é… (pisca) Eu sou muito religioso!

Promotor: – E qual religião você segue?

Zé do Povo com o peito cheio de orgulho: – Eu sou católico apostólico romano!

Deus com descaso: – Hum…hum…

– Vamos ver se eu lembro bem… Você, Zé… foi quatro vezes à Igreja, nesses quarenta e poucos anos… A primeira para ser batizado…(Zé do povo vai contando nos dedos e fazendo careta), a segunda no seu casamento, a terceira no casamento da sua irmã, e a última, na missa de sétimo dia de seu avô…

Promotor: – Realmente muito católico!

Zé do Povo mostra a língua.

Deus: – Mas em contrapartida… (Zé do Povo arregala os olhos)… toda sexta feira você ia no terreiro de Umbanda tomar passe… E tem mais, ficava vendo novela que fala de reencarnação… e acreditava!

Promotor com cara de espanto: – Hoooo…. Vou marcar aqui na fixa dele: macumbeiro!

Zé do povo levanta a mão para pedir a palavra e balança a cabeça em protesto: – Macumbeiro também não… coloca aí “espiritualista”

Deus: – Muito bem! Já que você se diz (piscando) espiritualista… e acredita em reencarnação… (Zé do Povo faz gesto de positivo e fica com cara de feliz), sua pena será triplicada! Você não tem desculpa para por a culpa de seus erros na sorte ou no … diabo!

Trovão. Zé do Povo desmaia.

Fecham-se as cortinas.

Fim do primeiro ato.

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